Muito antes de Patrocínio se firmar como potência do Agronegócio brasileiro, sua história já corria literalmente por debaixo da terra.
Nos tempos em que esta vasta região era conhecida como Sertão da Farinha Podre, o sal era artigo precioso e monopólio rigoroso. Vinha de longe, trazido em lentas e rangentes tropas de carros de bois, indispensável para o gado e para a própria sobrevivência econômica da época.
Foi então que a natureza revelou um tesouro inesperado: a descoberta das águas sulfurosas e do sal que se formava às margens das nascentes mudou o destino da região.
A partir daquele momento, o Sertão já não precisava depender das longas rotas comerciais. O que antes vinha de fora agora brotava do próprio chão patrocinense.
O olhar estrangeiro que registrou nossa riqueza
A história ganhou contornos científicos com a passagem do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire por Patrocínio, no século XIX.
Encantado com as águas do Córrego Bebedouro – hoje no distrito de Salitre de Minas -, ele descreveu com rigor acadêmico aquilo que os moradores já intuíram: as águas de Salitre eram evidentemente análogas às águas sulfurosas da Europa.

Saint-Hilaire registrou ainda que o sal extraído poderia ser utilizado em diversos processos industriais, antecipando um potencial econômico que só mais tarde seria plenamente compreendido.
Ciência, medicina e linhagens históricas
Outro nome de peso que percorreu essas terras foi o médico e botânico Joaquim Monteiro Caminhoá.

Ele pesquisou as propriedades terapêuticas das águas sulfurosas de Araxá e Salitre, publicando estudos que atribuíam a elas a capacidade de auxiliar no tratamento de diversas enfermidades.
Como curiosidade histórica, Caminhoá era bisavô de Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara e figura marcante da política nacional no século XX.
Trilhos que seguiam a água
Há ainda um dado curioso revelado por jornais da época: municípios mineiros que possuíam águas sulfurosas receberam malha ferroviária.
O motivo era estratégico e econômico – facilitar o acesso às estâncias hidrominerais, já que o trem era o principal meio de transporte daquele período. Assim, as três estâncias hidrominerais de Minas Gerais foram conectadas pelos trilhos do progresso.
Em 1911, a água sulfurosa de Patrocínio foi analisada na cidade de Hamburgo, na Alemanha, reforçando o reconhecimento internacional de sua qualidade.

Sonhos interrompidos e projetos concretizados
Antes mesmo da construção do Hotel Serra Negra, o engenheiro Modesto de Faria Belo e o clínico Eduardo Montandon solicitaram ao governo de Minas Gerais o direito de exploração das áreas da Serra Negra e de Salitre de Minas. O plano era ambicioso: erguer dois centros balneários, um em cada localidade.
Entretanto, o atraso na construção da linha férrea e a morte precoce de Modesto de Faria Belo – menos de seis meses após conquistar a concessão – interromperam temporariamente o projeto. O sonho só ganharia forma anos depois, com a inauguração do Hotel Serra Negra, marco do turismo hidromineral na região.
O nome que carrega a essência
Pouca gente sabe, mas o nome “Rio Salitre” é uma homenagem direta às águas salitrosas e sulfurosas que caracterizam a região. É a geografia contando sua própria história.

Importante também esclarecer: água mineral é uma coisa; água sulfurosa é outra. Esta última, com suas propriedades específicas e odor característico, representa uma das maiores riquezas naturais do município – patrimônio geológico, histórico e cultural.
E se o passado já mostrou o valor dessas águas, o futuro ainda reserva capítulos importantes.
Em breve, revisitaremos o trabalho dos políticos patrocinenses que lutaram para transformar o município em estância hidromineral.
*Pesquisa e acervo de imagens Marelizio Alves Cortes