A construção da Igreja Matriz de Patrocínio foi conduzida pelo Padre Damião Kleverkamp, SSCC, figura central de um tempo em que fé e esforço coletivo caminhavam lado a lado. À época, a Paróquia de Nossa Senhora do Patrocínio encontrava-se sob os cuidados dos Padres dos Sagrados Corações, que, com zelo pastoral, guiavam a vida religiosa da comunidade.
A antiga igreja, já marcada pelo passar dos anos, foi demolida, dando lugar a um templo provisório, erguido com simplicidade, mas sustentado pela esperança dos fiéis que aguardavam a nova matriz. No dia 6 de janeiro de 1934, o Padre Damião distribuiu 200 convites – pequenos chamados que, mais do que definir uma planta, convidavam a cidade inteira a sonhar, em conjunto, com a casa de sua padroeira.
A reunião realizou-se no edifício do antigo Clube União Operária, na Rua Presidente Vargas, nas imediações da Praça da Matriz – espaço que, naquele momento, tornou-se palco de decisões que moldariam o futuro espiritual de Patrocínio.
Presidido pelo então prefeito, Dr. Honório Abreu, o encontro teve início com a exposição dos trabalhos e, em seguida, a palavra foi concedida ao juiz de Direito, Dr. Martins de Oliveira, que, em vibrante discurso, ressaltou a urgência e a grandeza da obra que se desenhava. Também se manifestou o ex-prefeito, Dr. Francisco de Matos, evocando a necessidade de um novo templo que acompanhasse o crescimento da fé local. A banda de música, como que traduzindo em notas o sentimento coletivo, executou peças que tornaram ainda mais solene aquele instante.

No dia 15 de junho do mesmo ano, sob o céu de um inverno que parecia abençoar o momento, lançou-se a pedra fundamental da nova matriz, sendo lavrada a ata que eternizaria o acontecimento:
Nova Matriz
“Ata do lançamento da pedra fundamental da Nova Matriz de Patrocínio
Aos quinze dias do entusiasmado mês de junho do ano corrente, nesta cidade de Nossa Senhora do Patrocínio, em frente à antiga igreja e no local destinado à nova matriz, realizou-se a bênção da pedra fundamental, sob a presidência do Exmo. e Revmo. Senhor Bispo Diocesano, Dom José Leme da Silveira Cintra, na presença de numerosas autoridades civis e religiosas, bem como de grande número de fiéis.
Estiveram presentes diversas personalidades de relevo, entre as quais o Exmo. Senhor Coronel João Cândido de Moura; o Exmo. Senhor Dr. Francisco Baptista de Matos, secretário-geral; o Coronel Bernardino Machado, tesoureiro; além de membros da sociedade local e representantes de instituições religiosas e civis.
Compareceram, ainda, representantes da Sociedade de São Vicente de Paulo, professores, membros do Apostolado da Oração e outras associações religiosas, assim como autoridades municipais, incluindo o prefeito e vereadores.
Após as formalidades iniciais, procedeu-se à bênção da pedra fundamental, sendo proferidas palavras alusivas à importância da construção da nova matriz, que substituirá a antiga igreja, já exígua para acolher o crescente número de fiéis desta cidade.
A nova igreja será dedicada a Nossa Senhora do Patrocínio, padroeira local, e sua edificação representa marco significativo para a comunidade, simbolizando o progresso religioso e social do município.”
A cerimônia encerrou-se em meio a viva comoção popular, ficando gravada na memória coletiva como um dos mais expressivos capítulos da história religiosa de Patrocínio, conforme registrou o jornal O Commercio.
Alguns pormenores daquele dia foram descritos pelo contador Francisco de Assis Campos, também em ata, enriquecendo ainda mais o relato:
“Foi celebrante do lançamento da PEDRA FUNDAMENTAL o Reverendíssimo vigário Padre Damião Kleverkamp, devidamente autorizado pelo Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo Diocesano, tendo sido auxiliado pelos Reverendíssimos Vigários Coadjutores da Paróquia, Padre Philibert Braun, Padre Leonardo Driesen e Padre Ambrósio Assensen, todos pertencentes à Congregação dos Padres dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, com sede na Holanda, e cuja Província, no Brasil, tem por Superior o Reverendíssimo Padre Gil van de Boogard.
A cerimônia revestiu-se de extraordinária pompa, obedecendo, em tudo, ao Ritual Romano, após a missa campal celebrada no Jardim Municipal. Procedida a bênção, e à presença dos paroquianos que, no ato, empunhavam círios acesos — dos quais consta relação ao final desta ata -, foi a PEDRA FUNDAMENTAL erguida à vista de todos, para que os viventes a contemplassem pela última vez, símbolo que, de tempo em fora, testemunharia a fé católica.
Colocada a pedra fundamental, por alguns momentos, ao lado do valo em que, dentro em pouco, seria assentada, tomou a tribuna sagrada o Reverendíssimo Padre Alar Porphírio de Almeida, que, evocando a crescente grandeza e a divina majestade da Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo, proferiu edificante sermão, infundindo em todos conforto espiritual, pela piedade e pela doutrina verdadeiramente evangélica de sua prédica.
Em seguida, foram cuidadosamente depositados no bojo da PEDRA FUNDAMENTAL relíquias da antiga matriz, pequenas peças de madeira, moedas e exemplares de jornais da cidade, bem como esta ata, após lida e assinada.”
A partir daquele marco, o jornal O Commercio passou a acompanhar, semana a semana, o avanço das obras, como quem narra não apenas a construção de paredes, mas a elevação de um símbolo coletivo de fé e pertencimento.

Em 1935, a nova Igreja Matriz de Patrocínio abria suas portas, não apenas como edifício, mas como testemunho vivo da união de um povo. Curiosamente, poucos sabem que as matrizes de São Gotardo e de Itaúna (MG) guardam traços arquitetônicos muito semelhantes aos da catedral patrocinense — como se, entre cidades distintas, houvesse também um elo invisível tecido pela mesma inspiração.


E assim, entre pedras, concreto, preces e esperança, ergueu-se um templo que se transformou num marco eterno da fé Cristã de Patrocínio.
*Pesquisa e arquivo fotográfico: Marelízio Alves Cortes