O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) prepara uma ampla revisão da metodologia utilizada para calcular o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Entre as mudanças discutidas está o tratamento de atividades que hoje não aparecem integralmente nas Contas Nacionais, incluindo atividades ilegais, como o tráfico de drogas.
A nova série do Sistema de Contas Nacionais deverá substituir a atual referência de 2010. Além da atualização metodológica, o processo incorpora novas fontes de informação e mudanças destinadas a ampliar a cobertura da atividade econômica brasileira.
Uma das questões que chama atenção é a contabilização de atividades ilegais que envolvem produção e transações econômicas. Dentro dos padrões internacionais das Contas Nacionais, atividades como produção e comercialização de drogas podem integrar a chamada fronteira de produção, apesar de serem proibidas pela legislação.
Crimes como roubo e furto, por outro lado, não são tratados da mesma forma, pois representam transferência de patrimônio e não produção de um bem ou serviço.
As apostas esportivas, que passaram por regulamentação no Brasil e movimentam bilhões de reais, também ganham peso na mensuração da atividade econômica. É importante diferenciar, porém, a atividade econômica produzida pelo setor de apostas do dinheiro efetivamente apostado pelos consumidores.
Já a eventual contabilização de determinados fluxos relacionados à corrupção é uma questão metodológica mais complexa e ainda não deve ser tratada como decisão definitiva. A classificação depende da natureza econômica da transação e das regras adotadas pelo Sistema de Contas Nacionais.
Estimativas divulgadas na imprensa apontam que a revisão completa da metodologia poderia elevar o nível nominal calculado do PIB em aproximadamente 4% a 5%.
Esse aumento, entretanto, não significaria que a economia brasileira cresceu 4% ou 5% de uma hora para outra. Seria, em grande medida, uma mudança estatística na forma de medir atividades que já existem, além da incorporação de novas fontes de dados e revisões de informações anteriores.
O dado oficial mais recente mostra que o PIB brasileiro atingiu R$ 3,4 trilhões no segundo trimestre de 2026. No acumulado dos quatro trimestres encerrados em junho, chegou a R$ 13,2 trilhões, segundo números divulgados pelo IBGE em setembro.
A revisão também pode alterar indicadores calculados como proporção do PIB. Caso o denominador aumente, relações como dívida pública/PIB e carga tributária/PIB podem apresentar valores diferentes mesmo sem alteração correspondente no estoque da dívida ou na arrecadação.
A inclusão de atividades ilegais nas Contas Nacionais não significa legalização, reconhecimento ou aprovação dessas práticas. Trata-se de uma questão estatística: o PIB procura mensurar a produção econômica dentro de critérios definidos internacionalmente, inclusive quando determinada produção ocorre fora da legalidade.