Caminhando para seus 184 anos de emancipação político-administrativa, a cidade de Patrocínio carrega em sua trajetória capítulos marcantes que ajudam a compreender a formação de seu território e de sua identidade.
Entre essas passagens históricas, algumas se destacam pelo simbolismo de representar o início de um povoamento que, com o passar do tempo, se transformaria em um dos municípios mais relevantes do Alto Paranaíba.
Hoje voltamos o olhar para um desses marcos fundadores: a primeira casa erguida nas terras que pertenciam à chácara do capitão Inácio de Oliveira Campos, personagem ligado aos primórdios da ocupação da região.
A construção se localizava nas proximidades da atual Avenida Faria Pereira, entre as ruas Rua Expedito Dias e Rua Pedro Barbosa Vitor. Para facilitar a visualização do leitor, trata-se do espaço onde hoje funciona o conhecido Disk Cerveja do Renatinho.
As duas vias que delimitam o local guardam, por si só, um pedaço da memória nacional: seus nomes homenageiam dois pracinhas patrocinenses que lutaram na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, integrando a força expedicionária brasileira naquele conflito que marcou o século XX.
Naquele tempo remoto, porém, a paisagem era bem diferente. No lugar da malha urbana e do movimento cotidiano, erguia-se um rancho simples, cercado pela natureza do cerrado mineiro.
Próximo dali corria o córrego Padre Vicente, onde existia um monjolo utilizado para moer grãos – curso d’água que hoje acompanha o traçado da Avenida Dom José André Coimbra.
Toda a propriedade era delimitada por muros de pedra, característica comum às antigas fazendas do período colonial.
Naquele período, ainda nos tempos das rotas abertas pelos desbravadores do interior do Brasil, Patrocínio ocupava posição estratégica.
A localidade servia como ponto de apoio para os sertanistas e bandeirantes que cruzavam os caminhos do interior, fornecendo mantimentos e abrigo nas longas jornadas pelos sertões.
Dali partiam antigas estradas reais: uma seguia rumo a Goiás, tendo como destino a histórica Vila Boa, atual Goiás; outra avançava em direção a Paracatu e à Serra de Lourenço Castanho, traçando caminhos que ajudariam a consolidar a ocupação da região.
O capitão-mor Inácio de Oliveira Campos, proprietário da área, mantinha extensas roças e uma expressiva criação de gado, que chegava a cerca de quatro mil cabeças – número significativo para os padrões da época e indicativo da importância econômica da propriedade.
Décadas mais tarde, já nos anos 1950, a memória daquele primeiro núcleo habitacional voltou a mobilizar a população. Por meio de um abaixo-assinado, moradores sugeriram ao então prefeito que o município adquirisse a área ao redor da antiga casa para erguer ali um marco histórico, celebrando a primeira construção da cidade e homenageando o capitão Inácio de Oliveira Campos.
A homenagem oficial, no entanto, viria algum tempo depois. Conforme registros do acervo da Câmara Municipal de Patrocínio, o reconhecimento foi formalizado pela Lei nº 654, de 1º de março de 1962, sancionada pelo então prefeito Enéas Ferreira de Aguiar.
Assim, entre muros de pedra, trilhas de tropeiros e caminhos que levavam aos confins do Brasil colonial, nasceu um dos primeiros capítulos da história de Patrocínio – lembrança silenciosa de um tempo em que uma simples casa no sertão marcava o início de uma cidade inteira.
*Pesquisa e acervo de fotos: Marelízio Alves Cortes