Após conquistar o título de Estância Hidromineral em meados da década de 1950, Patrocínio passou a vislumbrar um novo horizonte de desenvolvimento. A cidade iniciava um ciclo de expectativas voltadas ao turismo, à exploração de suas águas minerais e ao fortalecimento de sua presença no mapa mineiro.
Em 1973, o então deputado estadual Lourival Brasil Filho, figura bastante atuante na vida pública patrocinense, teve papel decisivo nesse processo. Foi ele o autor da lei que consolidou o reconhecimento de Patrocínio como Estância Hidromineral, abrindo caminho para projetos de expansão e investimentos no setor.
Dois anos antes, em 26 de novembro de 1971, o parlamentar já havia dedicado atenção especial ao tema ao publicar um amplo levantamento no caderno Turismo do jornal O Estado de Minas. Na reportagem, Lourival detalhava o trajeto asfaltado que ligava Belo Horizonte a Patrocínio, destacando o acesso até a Estância Hidromineral de Serra Negra.

Para quem saía da capital mineira, o percurso seguia pela chamada Rodovia do Milho, a BR‑354, até Patos de Minas. Dali, no entroncamento com a BR‑365 — conhecida à época como Rodovia do Sal —, o acesso continuava pela MG‑230, popularmente chamada de Rodovia do Leite, até chegar ao destino turístico.
Outro ponto pouco lembrado atualmente era a lagoa localizada no Chapadão de Ferro, nas proximidades do Hotel Serra Negra. O local era bastante procurado por pescadores da região, que encontravam ali abundância de tilápias. A paisagem também despertava interesse científico e turístico.

Na ocasião em que Lourival Brasil escrevia sobre o potencial da estância, o hotel recebia uma equipe de televisão de São Paulo. Os profissionais registravam imagens da lagoa e da região para uma série sobre o extinto vulcão do Chapadão de Ferro, formação geológica da era terciária. O material seria exibido no Programa do Brasil, apresentado pelo jornalista Carlos Gaspar, conhecido em Minas Gerais por sua atuação na TV Itacolomi.
Empolgados com as perspectivas de crescimento da estância, o deputado Lourival Brasil, o empresário Gentil Nascimento e sua esposa, dona Anália Nascimento, lideraram um processo de reorganização empresarial voltado à exploração das águas minerais.
Surgiram então a Águas Minerais de Patrocínio S.A. e a S.A. União Distribuidora e Engarrafadora, que passaram a integrar uma nova estrutura denominada Serra Negra de Minas S.A., com capital estimado em 8 bilhões de cruzeiros.
O plano de expansão era ousado. Além da construção de um novo hotel, previa-se ampliar a produção de água mineral magnesiana para até 60 mil garrafas por dia, transformando a região em um importante polo turístico e industrial.
Para estruturar o projeto, a estância recebeu a visita do professor Antônio Lopes de Sá, catedrático do IMACO, que permaneceu vários dias em Serra Negra realizando estudos e planejando a organização da futura empresa.
A meta era ambiciosa: em apenas dois anos, Serra Negra deveria se consolidar como uma das mais modernas estâncias hidrominerais da América do Sul.

Naquele período, o hotel já possuía boa infraestrutura para receber visitantes. O prédio – hoje abandonado -, contava com 15 apartamentos de casal e outros 25 quartos destinados a casais e hóspedes individuais, todos com instalações consideradas confortáveis para a época.
Dentro do complexo funcionava ainda um balneário simples, mas bastante apreciado pelos frequentadores. Ali eram oferecidos banhos quentes de água sulfurosa, disponibilizados gratuitamente aos hóspedes.
A produção mineral também chamava atenção. Em 1973, a empresa fabricava cerca de 300 quilos de sais minerais por semana, produto vendido aos visitantes e turistas que passavam pelo local.
Segundo a medicina da época, a água sulfurosa — ingerida ou utilizada em banhos sob prescrição médica – auxiliava no tratamento de enfermidades como diabetes, excesso de ácido úrico, reumatismo, colite e problemas hepáticos.
Além das propriedades terapêuticas das águas, uma das atrações mais populares da estância era o passeio a cavalo até a Lagoa do Chapadão de Ferro, experiência que reunia turistas e moradores em meio às paisagens naturais da região.
A fotografia que ilustra esta matéria – recuperada e colorizada com auxílio de inteligência artificial – mostra o deputado Lourival Brasil Filho sendo homenageado na Câmara Municipal de Patrocínio, que na época funcionava no histórico Casarão da Matriz.
Os registros acima ajudam a lembrar de um período em que Serra Negra alimentava grandes sonhos e Patrocínio acreditava estar prestes a se tornar um dos grandes destinos hidrominerais do continente.
Pesquisa e acervo de fotos: Marelízio Alves Cortes