MEMÓRIA: A ELEIÇÃO DE 1966, O DOMÍNIO DA ARENA E A CURIOSA DANÇA DE CADEIRAS NA PREFEITURA DE PATROCÍNIO

Em plena ditadura militar, eleição teve candidatura única, vereadores divididos em sublegendas e um recorde histórico de votação

A política de Patrocínio sempre teve suas particularidades. Mas poucas eleições foram tão curiosas quanto a de 15 de novembro de 1966, realizada em pleno regime militar, quando o Brasil vivia uma profunda transformação em seu sistema político-partidário.

Após o movimento militar de 1964, o Ato Institucional nº 2 (AI-2), editado em outubro de 1965, extinguiu os partidos políticos existentes. 

Em novembro daquele ano, novas regras abriram caminho para o bipartidarismo, que seria dominado pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), de sustentação ao governo militar, e pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição consentida.

Em Patrocínio, porém, a história ganhou contornos próprios. Todos os políticos locais se acomodaram na Arena, deixando a eleição municipal de 1966 sem uma oposição partidária formal. O MDB só seria organizado no município em 1967.

Uma Arena, dois grupos e uma candidatura única

Embora reunidos sob a mesma legenda, os antigos adversários políticos não desapareceram. Apenas trocaram de endereço partidário.

Os integrantes do antigo PSD e do PTB passaram a compor a Arena 1, enquanto os egressos da UDN se agruparam na Arena 2. Era a maneira encontrada para acomodar as tradicionais correntes políticas locais dentro do novo sistema.

Na convenção partidária, ficou definida a chapa formada por João Alves de Queiroz, candidato a prefeito, e Waldemar Martins Lemos, vice.

Sem concorrentes, a dupla recebeu 7.076 votos.

A eleição também entrou para a história por outro motivo: pela primeira vez, um candidato à Câmara Municipal ultrapassou a marca dos mil votos. O feito coube ao empresário Jorge Elias Abrão, eleito com 1.042 votos, uma votação expressiva para os padrões da época.

Os vereadores eleitos em 1966

Além de Jorge Elias Abrão, a composição da Câmara Municipal registrou os seguintes nomes e votações:

Vereador                Votos

Jorge Elias Abrão – 1.042

Osmar Pereira Nunes – 739

Dr. Vicente de Paula Arantes – 709

Dr. José Figueirêdo – 702

Walter Teixeira de Ávila – 671

Job Rezende Filho – 639

Dr. Hélio Furtado de Oliveira – 564

Sebastião Elói dos Santos – 555

Lázaro Nunes de Paula – 514

Amâncio Silva – 457

Osvaldo Queiroz Guimarães – 435

Dentista Abdias Alves Nunes – 428

José Aloísio de Ávila – 372

Entre os suplentes, aparecem Gerson dos Santos (331 votos), Antônio Pedro de Alcântara (239), Antônio Luiz de Oliveira (207) e Irineu José Alfredo (93).

A dança de cadeiras no comando da Prefeitura

João Alves de Queiroz e Waldemar Martins Lemos tomaram posse em 31 de janeiro de 1967. João permaneceu à frente da administração até 31 de janeiro de 1969, quando o vice assumiu o comando do município, conforme um acordo político firmado entre os dois grupos.

E aqui a história ganha um ingrediente interessante.

A troca de comando não foi resultado de uma disputa eleitoral, mas de um entendimento entre as forças políticas que, embora abrigadas na mesma Arena, mantinham suas próprias lideranças e interesses.

A posse de Waldemar Martins Lemos ganhou destaque nas páginas da Gazeta, que registrou a solenidade realizada às 20 horas, perante a Câmara Municipal, com a presença do deputado Expedito de Faria Tavares, vereadores, magistrados, autoridades civis, militares e religiosas, representantes da imprensa e da população.

Discursaram, entre outros, o presidente da Câmara, Dr. Hélio Furtado de Oliveira; João Alves de Queiroz; Dr. José Figueiredo; o deputado Expedito Tavares; o novo prefeito, Waldemar Martins Lemos; o juiz Dr. Edgar Andrade Rocha e o padre Bertrando.

A cerimônia teve ainda uma homenagem especial: os servidores municipais inauguraram um retrato a óleo de João Alves de Queiroz, pintado pelo artista Hélio de Oliveira Santiago. Coube a João Moreira Caldeira falar em nome do funcionalismo.

A Gazeta classificou a solenidade como um acontecimento marcante para Patrocínio e encerrou a reportagem desejando felicidades ao novo administrador e manifestando admiração pelo prefeito que deixava o cargo.

Mas a dança de cadeiras ainda não havia terminado.

Em 31 de janeiro de 1971, João Alves de Queiroz voltou à Prefeitura, permanecendo até 18 de setembro daquele ano, quando o Dr. Olímpio Garcia Brandão assumiu a administração municipal como prefeito nomeado.

E nas disputas para deputado?

Na eleição de 1966, Patrocínio também registrou votações expressivas para candidatos à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados.

Deputados estaduais mais votados, conforme o levantamento histórico: Dr. Expedito Tavares – 4.353 votos; Dr. Magalhães Pinto — 2.740; votos; Lourival Brasil Filho — 2.592 votos; Dr. Rondon Pacheco — 1.612 votos.

O deputado federal mais votado foi José Maria Alkmim, com 3.256 votos

Ao todo, 74 candidatos a deputado receberam votos no município.

Duas eleições, uma coincidência histórica

Os registros políticos de Patrocínio apontam que 1954 e 1966 foram as únicas eleições municipais com candidatura única para prefeito e vice-prefeito.

O pleito de 1966 também se destacou pela vinculação partidária entre a chapa majoritária e os candidatos à Câmara, dentro das regras eleitorais daquele período.

Foi uma eleição sem disputa pelo Executivo, mas nem por isso livre de articulações, acordos e interesses políticos.

Afinal, em Patrocínio, até quando todos estavam no mesmo partido, havia mais de um grupo querendo dar as cartas.

E, como mostra a história, a famosa dança de cadeiras na Prefeitura não é exatamente uma invenção dos tempos modernos.

**Pesquisa histórica: Marelízio Alves Cortes – As imagens resgatadas foram corrigidas pela IA

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