Antes da televisão, da internet, das redes sociais e até mesmo dos modernos meios de comunicação que hoje parecem indispensáveis, havia o rádio. E foi pelas ondas do rádio que, em 17 de julho de 1949, Patrocínio deu um dos mais importantes passos de sua história.
Naquele domingo, a cidade testemunhava a chegada de sua primeira emissora de rádio, a ZYW-8, um empreendimento que prometia romper fronteiras, aproximar pessoas e colocar Patrocínio em sintonia com o mundo.
Por trás daquele projeto estavam quatro jovens patrocinenses descritos, à época, como audazes – homens que ousaram apostar em uma ideia que parecia grandiosa demais para uma cidade ainda distante dos grandes centros.
A instalação da emissora não representava apenas a chegada de um novo veículo de comunicação. Era o início de uma nova era. Pela primeira vez, notícias, música, informação, cultura e entretenimento poderiam atravessar o espaço e chegar simultaneamente a milhares de ouvidos em Patrocínio e na região.
A expectativa em torno da inauguração era tamanha que a Gazeta de Patrocínio, um dos principais registros da imprensa local daquele período, estampou em sua capa a chegada da nova emissora, destacando o empreendimento e seus jovens idealizadores.
Para entender a dimensão daquele momento, voltamos às páginas do jornal de 1949 e resgatamos a reportagem publicada na época. O texto, reproduzido a seguir, preserva a linguagem e a grafia originais e revela como Patrocínio recebeu aquele que seria um dos maiores marcos de sua história da comunicação.
Confira a reportagem histórica da Gazeta de Patrocínio sobre a chegada da ZYW-8.
A foto que ilustra a matéria, mostrando os estúdios e o auditório da emissora, é da década de 50, quando a Rádio Difusora, já de propriedade do emblemático sr Pedro Alves do Nascimento, passou a funcionar no segundo andar do prédio do antigo Cine-teatro Rosário, na Praça Honorato Borges:
“RÁDIO EMISSORA DE PATROCÍNIO
Conforme Portaria N. 12 730–49, do Exmo. Sr. Ministro da Viação, publicada no “Diário Oficial” de 2 deste mês e a seguir transcrita, vemos tornar-se realidade o velho sonho de nossa querida Patrocínio: possuir sua própria emissora radiofônica.
Cidade-alfa e das mais civilizadas do ‘hinterland’ (que quer dizer região de terras situada no interior, afastada do litoral, de grandes centros urbanos ou de áreas metropolitanas) brasileiro, não se compreendia a existência, por esse longo tempo, dessa lacuna em nossas avançadas de progresso.
Já por duas vezes, ultimamente, presenciamos, consternados, morrer essa ideia, sem se concretizar, embora nascida com entusiasmo e vigor, vencida ora por ganância comercial, ora por oposições doentias e infundadas. E com isso Patrocinio é que se viu tolhida de mais esse inestimável melhoramento, enquanto que suas irmãs vizinhas – Uberaba e Araxá – desde muito sentem a grande satisfação de lançar no éter as suas estações emissoras que lhes testemunham o dinamismo, patenteando-lhes os valores artísticos, intelectuais, sociais e comerciais.
Agora, felizmente, podemos afirmar à nossa boa gente que dentro de poucos meses nos colocaremos em nível igual com a instalação da RÁDIO EMISSORA DE PATROCÍNIO, mais uma obra benemérita do radio-patriotismo desses patrocinenses batalhadores e tenazes que são José Alves Ribeiro, José Constantino de Oliveira e Osvaldo Ferreira dos Santos.

Logo que circulou a alvissareira notícia, procuramos entrevistar os organizadores do grande empreendimento, e, assim, transmitimos aqui, com inefável alegria, tudo quanto conseguimos apurar sobre tão oportuno assunto.
Concedida a licença oficial, maior óbice para a empresa, foi imediatamente librado com a BYINGTON & CIA., do Rio de Janeiro, o contrato, que compulsamos, para a construção e entrega, no prazo já em curso de 3 meses, do transmissor de 250 watts, potência máxima permitida. O seu custo é de Cr$ 90.000,00.
A instalação completa com torres de 45 metros, estúdios, etc., está orçada em Cr$ 250.000,00; e tudo a respeito se movimenta, pronta e rapidamente, graças à peculiar e conhecida atividade, coadjuvada com excelente tirocínio, de José Ribeiro, José Constantino de Oliveira e Osvaldo Ferreira dos Santos, homens que falam pouco, mas agem muito.
Ainda não foi escolhido o local para a instalação da estação. De nossa parte, porém, apelamos em nome de todos os nossos elementos de valor, para que seja o estúdio localizado em um dos dois centros mais movimentados da cidade – Praça de Santa Luzia e Praça Honorato Borges –, de vez que será, para os nossos visitantes, o espelho através do qual revelaremos o muito que somos.
Soubemos que, embora os vários pedidos recebidos de Belo Horizonte, Uberaba, Araxá, Araguari e Patos, pretende a empresa lançar mão para a sua direção artística de prata da casa, atitude aliás, elegante, porque, de fato, dispomos aqui mesmo de elementos ótimos e capazes.
Outra atitude de cristalina beleza é a de que, em suas atividades culturais e de propaganda, não terá a novel emissora qualquer preferência de carácter político e religioso, corroborando destarte, para a implantação em nosso meio dos salutares ditames da Constituição Brasileira.
A parte técnica conta com os conhecimentos comprovados do Sr. Levy José Martins, numa cooperação valiosa e desinteressada, que mais e mais eleva no conceito dos patrocinenses o valor desse trabalhador altruístico das boas causas.
Estão, pois, de parabéns – e registramo-lo com louvor…”
No dia 05 de novembro de 1949 a instalação da rádio emissora em Patrocínio se torna realidade. Leia a reportagem de inauguração:
“Sob vibrantes aplausos, realizaram-se ontem, no Cine-Teatro Rosário, a partir de 20 horas, as solenidades de inauguração da RÁDIO DIFUSORA DE PATROCÍNIO – ZYW – 8
Aquela simpática Casa de Diversões e seu superlotado “Foyer” transbordante e belíssimo, o entusiasmo lídimo de toda a nossa cidade. Mais uma vez não tiveram acolhida no peito de nosso povo culto, ativo e independente as vozes retrógradas da doença atravancadoras do progresso.
É que na realidade Patrocínio em peso estava presente, recebendo de peito de coração aberto essa grande obra, muito embora combatida inelutável e, pior ainda, injustamente por um grupo de elementos (…) !
Outro que fosse o procedimento de nosso povo, preferível seria, então, que desaparecesse da face da terra, porque, conformar-se com o aviltamento de escravos, de colonos sem ideal, nem princípios próprios, é o mesmo que inexistir, o mesmo que vegetar apenas.
Inegavelmente a ZYW – 8 – eleva Patrocínio ao nível das grandes “urbs”. E ‘Gazeta’ que nunca mediu esforços na defesa dos legítimos interesses do povo, principalmente do patrocinense, vê, assim, coroada de magnífico êxito a concretização dessa iniciativa louvabilíssima, à qual desde o início deu o seu apoio franco e decidido. São, pois, também nossos os louros que vem colhendo a nossa Difusora.
À inquebrantável tenacidade de seus fundadores, cujos nomes, JOSÉ ALVES RIBEIRO, JOSÉ CONSTANTINO DE OLIVEIRA e OSVALDO FERREIRA DOS SANTOS, a história de Patrocínio regista com letras de ouro, – vieram juntar-se a cultura e inteligência aprimoradas do distinto patrício – DR. MOACIR RIBEIRO -, sem o concurso do qual essa realidade que aí vemos, e certamente por algum tempo ainda, permaneceria no domínio de um sonho nosso, de possuirmos nós a nossa própria estação de rádio.
Ao lado e ao espírito de iniciativa e patriotismo dos de que boa-fé analisagem os fatos, — veio a patriótica ideia da escolha, para comemorar a inauguração da Emissora, do DIA 5 DE NOVEMBRO DE 1949, CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE RUI BARBOSA, a quem ninguém excedeu na defesa da Liberdade e da Democracia.
Nenhuma outra homenagem pode-se prestar àquele excelso vulto de nossa Pátria, que a de lançar ao ar sua emissora, nesse grande dia!
Discorreram, com muita propriedade e acerto, sobre a solenidade, fazendo ressaltar o que representa para a nossa cidade e seu progresso a Rádio Difusora de Patrocínio, o Sr. José Alves Ribeiro, um de seus diretores, e o consagrado jurisperito e orador vibrante, o Exmo. Sr. Dr. José Pereira Brasil, íntegro Juiz de Direito desta Comarca, o qual mais uma vez encantou com seu verbo ruibarbosiano, ardoroso, fácil, escorreito, elegante e elevado, a compacta assistência, que o ouviu embevecida, e deleitou todos os ouvintes que sintonizavam a ZYW-8.
Para não atrasarmos a edição matutina desta folha, deixamos para o próximo número o noticiário circunstanciado da 2a. parte do programa da Rádio o qual devia constar de um magnífico “show” organizado com artistas locais.”
*Pesquisa histórica e imagens: Marelízio Alves Cortes – as fotografias originais foram recuperadas com auxílio de IA