Em 1º de novembro de 1938, Patrocínio dava um passo decisivo para aproximar comunidades, encurtar distâncias e fortalecer a economia rural: começava a construção daquela que seria uma de suas primeiras grandes estradas, ligando a cidade ao então distrito de Cruzeiro da Fortaleza.
Mais do que uma simples via de terra, a obra representava um novo caminho para o desenvolvimento. O traçado também passava por Esmeril e Chapadão de Ferro, reduzindo consideravelmente o percurso até o distrito e criando uma ligação direta com algumas das áreas mais férteis e produtivas do município.
Naquele tempo, a abertura da estrada foi recebida como uma das grandes novidades de Patrocínio. Afinal, cada quilômetro vencido pela estrada significava também uma nova possibilidade para os produtores rurais, para o comércio e para o transporte da produção.
Uma obra que atravessou governos
Os trabalhos avançaram lentamente, como era comum numa época em que as estradas eram abertas praticamente à força do braço, com recursos e equipamentos muito mais modestos que os atuais.
Foram 31 meses de trabalho – quase três anos – até a conclusão da estrada.
O então prefeito Dr. Vicente Soares, que havia solicitado os estudos para a nova ligação, deixou o comando do município em 25 de março de 1940. A obra passou, então, pelas mãos do prefeito José Ribeiro Lage, que permaneceu apenas três meses à frente da administração.
Coube ao doutor José Garcia Brandão, posteriormente, conduzir a etapa final e celebrar a inauguração, realizada em 11 de maio de 1941.
A estrada estava pronta. E, com ela, Patrocínio começava a enxergar o seu território de uma maneira diferente: as comunidades rurais ficavam mais próximas e a produção encontrava novos caminhos para chegar à cidade e a outros mercados.
Pelas terras da lendária Mata da Fortaleza
Cruzeiro da Fortaleza, localizado na tradicional e lendária Mata da Fortaleza, carregava naquele período uma combinação de história, natureza e riqueza agrícola.
A região era conhecida por suas terras férteis, além de suas nascentes e águas minerais. As lavouras ocupavam boa parte da paisagem e, segundo registros da época, a área era considerada uma das melhores regiões para o cultivo agrícola em todo o Oeste e Triângulo Mineiro.
Por aquela nova estrada deveriam passar alguns dos principais produtos da economia rural: milho, algodão, café, feijão e gado. E, naturalmente, os famosos queijos produzidos nas propriedades da região, que já começavam a conquistar fama muito além das porteiras onde eram fabricados.
Mais de 500 pessoas na inauguração
A inauguração da estrada transformou-se em um acontecimento daqueles que entram para a memória coletiva.
Na manhã de 11 de maio de 1941, às 9 horas, uma grande caravana deixou Patrocínio rumo à região do Imbé. À frente estava o então prefeito José Garcia Brandão, que havia participado da condução da etapa final da obra.
O destino era uma fazenda pertencente ao produtor rural José Fernandes de Melo, onde foi preparado um grande almoço para celebrar a conquista.
Mais de 500 pessoas participaram da festa.
Naquele dia, entre conversas, comida farta e a alegria de uma comunidade que acabava de ganhar uma nova ligação com seu próprio território, a estrada deixava de ser apenas uma obra pública. Tornava-se símbolo de uma época em que abrir caminhos significava também abrir oportunidades.
Patrocínio começa a desenhar seu mapa rodoviário
Anos mais tarde, essa preocupação com a integração do município ganharia ainda mais força.
Em 8 de março de 1957, o vice-prefeito em exercício, Dr. Amir Amaral, sancionou a Lei nº 367, criando oficialmente o Plano Rodoviário do Município de Patrocínio.
O documento revela o tamanho da malha que já havia sido construída e também mostra os caminhos que o município pretendia abrir nos anos seguintes.
Rodovias já construídas
Patrocínio – Cruzeiro da Fortaleza – Brejo Bonito: 56 km
Patrocínio – Silvano – Gonçalves: 45 km
Vila de São João da Serra Negra – Cafeisópolis: 22 km
Patrocínio – Três Porteiras: 48 km
Patrocínio – Ponte Cel. João Cândido de Aguiar: 42 km
Santa Luzia dos Barros – Ribeirão dos Caixetas: 30 km
Patrocínio – Santa Rosa: 30 km
Patrocínio – Macaúbas: 25 km
Patrocínio – Boa Vista: 23 km
Cruzeiro da Fortaleza – Santana: 13 km
Patrocínio – Vila de São João da Serra Negra: 24 km
Patrocínio – Salitre: 36 km
Patrocínio – Araxá, até a propriedade do Sr. Gustavo Lemos: 37 km
Patrocínio – Santo Antônio: 14 km
Silvano – Córrego da Mata: 20 km
Patrocínio – Porto da Boa Esperança: 36 km
Macaúbas – Russo: 16 km
Caminhos que ainda estavam no papel
O Plano Rodoviário também previa novas ligações:
Estação de Folhados – Povoado de Macaúbas: 9 km
Silvano – Ponte M4: 12 km
Usina José Pedro – Grupo Rural da Boa Vista: 10 km
Capela dos Martins – Vila de São João da Serra Negra: 9 km
Termas de Serra Negra – Chapadão de Ferro: 12 km
Tijuco – Mata da Bananeira: 9 km
Grota do Cedro – Imbé: 6 km
Sapé de Baixo – Porto da Boa Esperança: 16 km
Santo Antônio – Russo: 12 km
Patrocínio – Boqueirão: 30 km
Brejo Bonito – Ponte do Rio Paranaíba: 20 km
Estradas que também contam histórias
Hoje, muitas dessas estradas fazem parte da rotina e podem parecer apenas linhas no mapa. Mas, há quase nove décadas, cada uma delas representava uma conquista.
Era por esses caminhos de terra que viajavam famílias, tropeiros, produtores, comerciantes e trabalhadores. Por eles também seguiam sacas de café, milho, algodão, feijão, rebanhos e queijos. Eram as artérias que conectavam a zona rural ao coração de Patrocínio.
A história da primeira estrada para Cruzeiro da Fortaleza é, portanto, muito maior do que a história de uma obra pública. É um retrato de um município que começava a vencer suas próprias distâncias e a transformar caminhos de terra em caminhos de progresso.
Entre estradas e histórias, está também uma parte importante da memória de Patrocínio.
*Pesquisa histórica e imagens: Marelízio Alves Cortes. As fotografias originais foram recuperadas com auxílio de inteligência artificial.